Ora, eis o ponto que me parece essencial: o fato de que a luta das classes (burguesa e proletária) tenha como objeto o Estado (hic et nunc) não significa de modo algum que a política deva definir-se em relação ao Estado. É preciso, portanto, distinguir atentamente a política proletária de seu objetivo imediato. Assim como Marx apresentou conscientemente O capital como "crítica da economia política", nós devemos chegar a pensar o que ele não pôde: uma "crítica da política" tal como ela é imposta pela ideologia e pela prática da burguesia. É somente do ponto de vista da burguesia que se pode fazer a distinção entre a "sociedade política" e a "sociedade civil": esta distinção é constitutiva da ideologia e da luta de classe burguesas e se impõe como uma evidência através do aparelho ideológico-político de Estado (a vontade geral como resultante da vontade individual, expressa no sufrágio universal e representada no Parlamento). Do mesmo modo pode-se dizer que somente do ponto de vista da burguesia se pode representar o Estado como uma "esfera" distinta do resto, distinta da sociedade civil (seja no sentido de Hegel, seja no sentido de Gramsci), fora da sociedade civil. É necessário observar que esta concepção ideológica, que serve a interesses precisos, não corresponde nem de longe à simples realidade. O Estado sempre penetrou profundamente a sociedade civil (nos seus dois sentidos), não só através do dinheiro e do direito, não só através da presença e intervenção dos seus aparelhos repressivos, mas também através dos seus aparelhos ideológicos.
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