Pode parecer gratuito nos deixarmos levar por esses jogos teóricos. No entanto, a experiência demonstra que a representação do comunismo que os homens — e especialmente os comunistas — fazem, por mais vaga que seja, não é estranha ao seu modo de conceber a sociedade atual e as suas lutas imediatas e futuras. A imagem do comunismo não é inocente: ela pode nutrir ilusões messiânicas que garantiriam as formas e o futuro das ações presentes, desviá-las do materialismo prático da "análise concreta da situação concreta", alimentar a idéia vazia de "universalidade" — que se encontra em algumas expressões equívocas similares, como o "momento geral", no qual uma certa "comunidade" de interesses gerais será satisfeita, como se fora a antecipação daquela que poderá ser um dia a universalidade do "pacto social" em uma "sociedade regulada". Esta imagem alimenta, enfim, a vida (ou a sobrevivência) de conceitos dúbios, com os quais, sob o modelo imediato da religião, da qual não forneceu nenhuma teoria, Marx pensou o fetichismo e a alienação, conceitos que, depois de 1844, retornarão com força nos Grundrisse e deixarão ainda os seus vestígios no Capital. Para decifrar o enigma é necessário retornar à imagem que Marx fazia do comunismo e submeter esta imagem problemática a uma crítica materialista. É através desta crítica que se pode perceber o que ainda resta em Marx de uma inspiração idealista do Sentido da história. Teórica e politicamente, vale a pena fazê-lo.
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